terça-feira, 10 de agosto de 2010

literatura infantil

Ah! Tu, livro despretencioso, que, na sombra de uma prateleira, uma criança livremente descobriu, pelo qual se encantou, e, sem figuras, sem extravagâncias, esqueceu as horas, os companheiros, a merenda... tu, sim, és um livro infantil, e o teu prestígio será na verdade, imortal. Cecília Meireles

O projeto em ação

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Os Estatutos do Homem
Artigo I Fica decretado que agora vale a verdade. agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu. Parágrafo único: O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.
Artigo V Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.
Artigo VI Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.
Artigo XI Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.
Artigo XIII Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.
Artigo Final. Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.
Tiago de Mello

II Seminário de Extensão Universitária - Apresentação de Banner

Professoras: Lucia, Heleonice, Jucilene
Rodas de histórias: Para gostar de ler
(Wheels of stories: Like to read)
Daiani Tacilia do Carmo¹, Marli Lúcia Tonatto Zibetti²
¹²Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
daianirolim@yahoo.com.br, marlizibetti@yahoo.com.br

RESUMO: Ler é necessidade básica para todos os seres humanos no contexto atual de nossa sociedade extremamente letrada e, por isso, o ensino da leitura deve ser entendido como uma das tarefas mais importantes da escola. O presente artigo tem como objetivo discutir a importância de desenvolver o gosto pela leitura desde a infância, de maneira que esta se torne uma atividade prazerosa e contribua significativamente para o sucesso na aprendizagem e na vida de cada sujeito. A discussão desta temática, neste trabalho, é realizada tomando-se por base as experiências desenvolvidas durante o Projeto de Extensão “Amigos da Gente em Rodas de História”, do Curso de Pedagogia da Universidade Federal de Rondônia em Rolim de Moura, vinculado ao PIBEX/UNIR. As principais ações do referido projeto consistem em realizar rodas de leitura em diferentes espaços sociais: escolas, praças e/ou organizações não governamentais com o intuito de contribuir para a formação de leitores e leitoras e mediadores e mediadoras de leitura. Durante o ano de 2009, as rodas de leitura estão sendo realizadas em uma escola pública nas proximidades do campus da UNIR/Rolim de Moura e no espaço da Pastoral da Criança. As referidas experiências indicam que a participação em atividades de leitura que pressupõem o encontro prazeroso entre literatura e leitor constitui-se em situação promissora para estimular o gosto pela leitura, tanto para crianças e jovens, quanto para docentes em formação.
Palavras-chave: Leitura; Mediação; Literatura.

Introdução
Aprender a ler por prazer é um desafio necessário. Em tempos onde a leitura acontece de maneira obrigatória é fundamental que se descubra que esta pode ser uma atividade encantadora. A idéia de que ler é um ato cansativo tornou-se um mito que deve ser desfeito se a escola e a sociedade desejam formar leitoras e leitores autônomos. A leitura deve causar alegria e ser incentivada desde cedo, na família, passando pela escola e seguindo pela vida.
É claro que ler é essencial para alfabetizar-se, estudar e informar-se, mas antes de tudo é uma atividade que deve ser prazerosa. Quando o sujeito aprende a ler simplesmente para estudar, o processo de aprendizagem e formação de personalidade perde o seu sentido e valor.
Portanto, a leitura prazerosa deve ser trabalhada para que todo esse processo tenha significado. Não só em decorrência da aprendizagem, mas acima de tudo pela alegria que a leitura pode proporcionar, ensinando a lidar com as mais diversas sensações e situações, preparando o sujeito para a vida. Ler é mergulhar fundo em um novo mundo repleto de inúmeras possibilidades.
Partindo desse pressuposto, este estudo faz uma reflexão acerca da importância de despertar o gosto pela leitura a partir da infância e o papel da mediação como canal principal desse processo, por meio da análise de algumas experiências vivenciadas nas atividades do Projeto Amigos da Gente em Rodas de Histórias.
A importância do gosto pela leitura na formação do sujeito
A leitura é o canal de interação entre quem lê e o texto lido, processo pelo qual se compreende a escrita que é seu principal objetivo. É forma exemplar de aprendizagem e meio eficaz de desenvolvimento da linguagem e da personalidade. É através da leitura que a criança inicia seu processo de aprendizagem, descoberta e compreensão de mundo.
Durante anos a leitura foi privilégio de poucos. Ter acesso a ela significava e ainda significa poder e conhecimento. E, se muitas pessoas tivessem a oportunidade de adquirir conhecimento por meio da leitura, poderiam ameaçar a pequena minoria que mantinha o poder. A história mudou e nos dias de hoje ler tornou-se direito de todos, atividade necessária à vida individual, social e cultural, ultrapassando os muros da escola.
Ler é ampliar o conhecimento, elevar o nível de aprendizagem e descoberta de si mesmo, permitindo acesso a novos mundos e outras culturas, além de tantas outras possibilidades; ler é essencial à formação do ser humano. É hábito que deve ser desenvolvido desde a mais tenra idade, sendo de extrema importância que a criança entre em contato com esse universo, tomando gosto pelo mesmo, não apenas para aprender, estudar ou se informar, mas antes de tudo por prazer.
Porém, despertar o gosto pela leitura e o prazer em ler não são tarefas fáceis, principalmente nos dias atuais onde o ato de ler é visto e tido apenas como atividade obrigatória.
Desde o início, a leitura está intimamente ligada ao processo de alfabetização e retenção de informações, o que realmente não deixa de ser, porém o olhar sobre ela e os métodos utilizados é que dão a ideia de que ler é apenas necessário à alfabetização, transformando a leitura em atividade cansativa, desanimadora e obrigatória, ou seja, “[...] nos ensinavam a ler não para o prazer ou conhecimento, mas apenas para instrução.” (MANGUEL, 1997, p. 86). Essa atitude transforma o ato de ler em algo mecânico, distante da proposta que une a leitura ao prazer, não permitindo que a mesma se torne uma forma de lazer, minimizando sua importância para a vida do sujeito.
Ler, entretanto, é muito mais do que obter instrução. É a possibilidade de explorar mundos, alimentar a alma, abrindo as portas para a imaginação, conhecer-se e reconhecer-se por meio dos personagens e histórias lidas, o que se confirma através das palavras de Fanny Abramovich:
Ler, para mim, sempre significou abrir todas as comportas para entender o mundo através dos olhos dos autores e da vivência dos personagens... Ler foi sempre maravilha, gostosura, necessidade primeira e básica, prazer insubstituível... E continua lindamente sendo tudo isso. (ABRAMOVICH, 1997, p. 14).
Mergulhar nesse universo possibilita o sucesso na formação da criança que se tornará sujeito ativo na sociedade. A leitura, incentivada desde cedo como atividade prazerosa, facilita o desenvolvimento e a aprendizagem. Torna a criança alguém capaz de lidar com seus sentimentos e relacionamentos, sanando suas curiosidades em relação ao mundo, a si mesma e ao seu cotidiano, auxiliando-a a lidar com as mais diversas situações.
Em relação à leitura, qualquer assunto é importante. Independente do texto lido ou da curiosidade do sujeito, as histórias infantis, contos de assombração e fantasia, poesia, parábolas, crônicas ou reportagens ensinam, educam e divertem. As boas histórias de literatura infantil, além de serem o início de tudo, são provas reais disso. Com capacidade de transmitir informação, contribuem no sentindo de ajudar o leitor a lidar com problemas e situações cotidianas de relacionamentos familiares e sociais, verdades e mentiras, morte, dor, alegria, tristeza, separações, crescimento pessoal e coletivo, entre outros.
Os personagens e as aventuras vividas, verdadeiras ou fictícias, comportam em si o poder de transportar o/a leitor/a para outros mundos. Ele/a se imagina nessas mesmas histórias, familiariza-se com os personagens, identifica-se com seus conflitos, reconhece sua vida através das palavras de um bom livro, e por meio dessa prazerosa sensação é possível desenvolver capacidades, ampliar o conhecimento e a cultura além de compreender melhor o que está a sua volta dando sentido às suas experiências e vivências, como afirma Ana Maria Machado:
Mas a leitura de bons livros de literatura traz também ao leitor o outro lado dessa moeda: o contentamento de descobrir em um personagem alguns elementos em que ele se reconhece plenamente. Lendo uma história, de repente descobrimos nelas umas pessoas que, de alguma forma são tão idênticas a nós mesmos, que nos parecem uma espécie de espelho. Como estão, porém, em outro contexto e são fictícias, nos permitem um certo distanciamento e acabam nos ajudando a entender melhor o sentido de nossas próprias experiências. Essa dupla capacidade de nos carregar para outros mundos e, paralelamente, nos proporcionar uma intensa vivência enriquecedora é a garantia de um dos grandes prazeres de uma boa leitura. (MACHADO, 2002, p. 20).
Ler se torna muito mais que uma necessidade. É uma arte, um fenômeno que causa êxtase e incentiva a criatividade, é ir muito além do prazer, da alegria, da emoção e do encanto que uma boa leitura pode proporcionar. A leitura tem poder de transformação. Impulsiona as habilidades intelectuais e espirituais como o pensamento, a fantasia, a vontade e a identificação, que resultam no conhecimento e expansão do eu. Faz nascer a necessidade de familiarização com o mundo, enriquecendo as experiências de vida e as próprias ideias. É a representação do mundo, do homem e da vida através das palavras permitindo que a criança se transforme à medida de suas necessidades, em sujeito crítico, atuante na sociedade.
Incentivar o gosto pela leitura significa contribuir com a formação de leitoras e leitores autônomos, capazes de aprender a partir dos diversos textos lidos ao longo da vida. Significa também formar leitores/as capazes de interrogar-se sobre a própria capacidade de compreensão do que lêem, produzindo conhecimento e expandindo-o.
Durante a leitura, independente do tipo de literatura, pode-se confirmar hipóteses, refazer algumas e confirmar outras. Ler por prazer como dito anteriormente é o início de tudo, principal característica para facilitar o processo de aprendizagem e essencial à formação do sujeito crítico. Mas para que isso aconteça é fundamental a mediação de quem domina essa capacidade, como destacam os aspectos a seguir.

O papel da mediação na construção do gosto pela leitura
Se despertar o prazer pela leitura é fundamental ao ser humano, a mediação exerce o papel principal nessa tarefa. O mediador e a mediadora são o elo entre a história, o/a leitor/leitora e os/as ouvintes; é por meio deles/as que são lidas as primeiras histórias e é pela capacidade desses/as motivadores/as de leitura que descobrimos e construímos nosso gosto.
Tão importante quanto o contador ou contadora de histórias, o/a mediador/a ao ler para uma criança ou até mesmo para um adulto, pode contribuir para que se desenvolva o prazer pela leitura, a curiosidade por outros livros e histórias, seu potencial crítico, além de auxiliar na compreensão do que está sendo lido, facilitando a aprendizagem.
Ao ler uma história o/a mediador/a contribui de maneira fundamental com a formação de sujeitos, seja criança ou adulto. Mediar a leitura de histórias é dar abertura à porta da imaginação e da descoberta, pois “[...] é importante para a formação de qualquer criança ouvir muitas, e muitas histórias... Escutá-las é início da aprendizagem para ser um leitor, e ser leitor é ter um caminho absolutamente infinito de descoberta e compreensão de mundo.” (ABRAMOVICH, 1997, p. 16).
Através dos seus gestos, entonação de voz e expressão corporal durante a leitura, o/a mediador/a pode alcançar espaços antes inatingíveis na imaginação das crianças, pois se por si só as histórias já exercem poder, em suas bocas as palavras se tornam ainda mais poderosas, basta olhar para quem as ouve e percebe-se isso.
Essa experiência é retratada no filme O Leitor, onde o personagem Michael exerce a função de mediador para Hanna que não sabe ler. Por meio da mediação de leitura realizada por Michael, a escolha que faz dos livros e das histórias, seus gestos e movimentos enquanto lê, proporcionam a Hanna diversas sensações como o medo, tristeza, alegria, pavor, entusiasmo, entre tantos outros sentimentos.
A capacidade de proporcionar emoções é apenas uma das características que tornam a mediação importante na leitura de histórias. Na realidade as histórias são carregadas de emoções, e quem lê ou conta faz com que essas sensações tornem-se reais para quem as ouve.
A pessoa que lê deve encontrar sentido no que está lendo, sendo assim, quem realiza a mediação é um dos responsáveis por fazer com que a leitura faça sentido. Quem lê aprende a ler e a admirar as histórias e tantos outros textos pela leitura mediada.
É claro que quem media uma leitura não precisa necessariamente ler e em seguida abrir uma discussão sobre o que foi lido, “Às vezes uma simples leitura basta. Nem tudo o que se lê precisa ser discutido, comentado e interpretado. [...] A leitura às vezes é como uma música que se quer ouvir e não dançar.” (CAGLIARI, 1996, p. 181). Portanto, em alguns momentos apenas ouvir e deliciar-se com o que está sendo lido é suficiente. A escolha da história é o que faz a diferença.
Ler é a única forma de se comunicar de igual para igual com o restante da humanidade, por esse motivo é a coisa mais importante a ser ensinada e esse processo começa na mediação da leitura, pois é nela que o gosto pela mesma surge. Se o/a mediador/a sabe utilizar esse recurso, sua atuação, com certeza, contribuirá para a formação de outros leitores e leitoras. A mediação faz com que a leitura torne-se atividade prazerosa e não apenas um consumo passivo. A formação da criança enquanto sujeito passa pelas histórias que um dia alguém leu para ela.
É, no entanto, óbvio e necessário que o/a mediador/a se prepare para tal função. Ele/a não pode apenas pegar um livro e ler de qualquer jeito. Pelo contrário, é o/a primeiro/a que deve sentir prazer no que lê, senão como passará ao ouvinte sensações que não teve ou não vivenciou? Deve ser um ávido/a leitor/a, sempre preparado/a e disposto/a a mediar uma leitura e discuti-la se necessário.
Mas afinal, quem são os mediadores e mediadoras?
O mediador e a mediadora são todos aqueles ou aquelas que lêem para alguém. Os pais são mediadores ao lerem para seus filhos, quando esses ainda não sabem ler ou mesmo quando já sabem; o irmão mais velho é mediador quando lê para o irmão mais novo; a avó é mediadora quando lê para sua neta; um amigo o é quando lê para outro amigo; a professora é mediadora quando lê para seus alunos e alunas. Enfim, qualquer pessoa pode ser mediador ou mediadora ao ler para alguém, desde que leve essa tarefa a sério, estando ciente de que é na mediação que acontece o primeiro contato das crianças com a leitura, lembrando que o ouvinte está lendo com ele/a, pois “A leitura oral é feita não somente por quem lê, mas pode ser dirigida a outras pessoas, que também “lêem” o texto ouvindo-o. Os primeiros contatos com a leitura ocorrem desse modo. [...] Ouvir histórias é uma forma de Ler.” (CAGLIARI, 1996, p. 155).
Mediar a leitura é ensinar o gosto pela mesma, contribuir na aprendizagem e no desenvolvimento do senso crítico e na produção de conhecimento dos sujeitos. Ler para crianças, adolescentes, jovens ou adultos não é tarefa fácil. A mediação de leitura exige responsabilidade, crença naquilo que se está fazendo e, claro, prazer e alegria ao ler.
O mediador é muitas vezes como um super-herói, que possui não só a capacidade de salvar boas histórias, mas também de salvar quem as ouve da alienação; ou como o negociador de um seqüestro que procura solucionar os problemas entre as histórias e o/a leitor/a, que sequestrado/a por elas não permite resgate.

Aprendendo e ensinando a gostar de ler
Não basta ter acesso aos materiais, as crianças devem ser envolvidas em práticas para aprender a usá-los, roda de leitura, contação de histórias, leitura de livros, sistema de malas de leitura, de casinhas, de cantinhos, mostras literárias, brincadeiras com livros. (MARICATO, 2005, p. 18).
O Projeto Amigos da Gente em Rodas de Histórias nasceu dentro do curso de Pedagogia, no campus de Rolim Moura da Universidade Federal de Rondônia e existe desde 2006, com sala fixa no bloco B da Universidade. Seu objetivo é trabalhar com incentivo à leitura como atividade prazerosa, não apenas na escola, mas também na família, contribuindo para aprendizagem das crianças através das rodas de histórias. O projeto visa além da participação da escola, a participação dos pais e mães como principais incentivadores da leitura.
Atualmente atende filhos e filhas de acadêmicos e acadêmicas de Pedagogia, além de atuar em um centro de atendimento a crianças e adolescentes coordenado pela Pastoral do Menor da Igreja Católica denominado “Pró-menor” e uma escola pública, próxima à Universidade, com incentivo à leitura através da atuação de mediadores/as e contadores/as de histórias.
Na escola pública é realizada uma roda de histórias duas vezes ao mês, com crianças do 1º ao 3º ano do ensino fundamental. A escola possui sua própria sala de leitura, mas os encontros promovidos pelo projeto acontecem nos corredores da mesma, aos sábados à tarde. Os livros utilizados são os da biblioteca do projeto. As crianças acompanhadas pelos pais, mães ou irmãos/ãs podem pegar livros ou gibis emprestados devolvendo-os na próxima roda.
A mediação de leitura é exercida por voluntários e voluntárias, professoras do campus e quatro alunas de Pedagogia que trabalham como bolsistas no projeto. Além da mediação na leitura, acontece também a contação de histórias realizada pelos próprios membros/as e voluntários/as do projeto.
O mesmo trabalho acontece na Pastoral do Menor (Pró-Menor) que é atendida pelo projeto com visita uma vez ao mês. O espaço é amplo, possuindo um pátio enorme, além de refeitório e sala de leitura com uma biblioteca que acaba de receber novos livros[3]. A mediação acontece na sala de leitura e a contação de histórias acontece no pátio, sem empréstimos já que os livros utilizados na roda são da própria biblioteca do local, com um público diferenciado de crianças a adolescentes.
Através dessas atividades é possível observar quais os tipos de histórias que as crianças apreciam e o que mais gostam de ler, se há incentivo em casa em relação à leitura, quais dificuldades elas encontram ao ler, o que as impede de realizar tal atividade e claro, como a mediação e a narrativa das histórias contribuem no prazer pela leitura e na aprendizagem e, a partir daí, produzir pesquisas que facilitem o trabalho nessa área.
O trabalho com o projeto Amigos da Gente em Rodas de Histórias é uma oportunidade e uma experiência muito rica para aqueles/as que acreditam na leitura como principal canal e fonte de aprendizagem prazerosa. Desde que nasceu o projeto tem possibilitado muitas situações e experiências interessantes e encantadoras, o que prova que o trabalho realizado tem alcançado seus objetivos: “O principal objetivo de qualquer atividade ou projeto de leitura por prazer é justamente desenvolver esse comportamento leitor: fazer com que os estudantes se tornem leitores autônomos e busquem novos livros, só pela curtição de viajar em suas páginas.” (BENCINI, 2006, p. 33).
Em uma das rodas de leitura promovidas pelo projeto, aconteceram duas surpresas que de imediato possibilitaram confirmar a importância do trabalho realizado pelo mesmo e como ele contribui na formação da criança.
A primeira aconteceu através da mediação de leitura. Assim que se chegou à escola e começou-se a organizar os livros sobre as carteiras e os carpetes sobre o chão, uma criança de mais ou menos quatro anos se aproximou. Era a neta da zeladora da escola que naquele dia a acompanhava.
Ela não sabia ler ainda, e inicialmente foi atendida por uma das professoras que participam do projeto e que mediou a leitura. O livro não possuía texto, mas continha algumas imagens de animais. A professora apontava para as imagens questionando quais eram aqueles animais. Com essa atitude foi possível observar aquela criança e sua reação cada vez que um novo animal aparecia naquelas páginas. Depois de um tempo, ela já definia por si só as imagens dos animais, imagens que ela havia gravado na memória e que ao apontá-las novamente já sabia que animal era aquele, encantada com aquela nova experiência.
As histórias sem texto são essenciais para serem utilizadas com aqueles que ainda não aprenderam a ler. As histórias com imagens possibilitam aguçar a visão, lançando um novo olhar sobre o que antes não era possível perceber:
Fora o prazer de folhear um álbum (colorido ou branco e preto), que a magia dum traço solto, duma cor poética, dum enquadramento insuspeito, dum saber ver diferente, dum refinamento no acabamento, permite e provoca... E é tão bom saber ver o belo ou descobrir o que é bonito sem que antes se suspeitasse disso. (ABRAMOVICH, 1997, p. 33).
Provavelmente essa criança não tinha quem mediasse ou incentivasse a leitura para ela, isso explicava seu fascínio e empolgação ao pegar um livro. Ela ficou encantada com a experiência possibilitada pela mediação e esse foi o primeiro passo para criar nela o desejo pela leitura.
Outra situação importante aconteceu nesse mesmo dia, durante a contação de histórias ocorrida após a mediação de leitura que se realizou por mais ou menos quarenta minutos. As crianças foram reunidas no corredor da escola e sentadas sobre um carpete, explicou-se que a partir daquele momento elas teriam outra experiência com as histórias. Todas olhavam atentas quando “João Jiló”, um menino muito amargo apareceu para lhes contar sua narrativa.
A história girava em torno de uma caçada que João Jiló foi fazer na floresta. Ele havia pegado um passarinho e, como era um menino amargo, resolveu matar o pássaro e o colocou em sua sacola de caça. No entanto, o passarinho não morreu e a cada passo de João Jiló ele cantava: “Ande devagar João Jiló, que esse passo dói, dói, dói...” As crianças ficaram encantadas com a história e, principalmente, com a melodia da música cantada pela narradora, e que durante a narração, repetia-se em situações diferentes. As crianças emocionaram-se, riram, sentiram medo e voltaram a rir novamente.
Uma garota, no entanto, chamava a atenção durante a narração. Ela deveria ter entre cinco ou seis anos. Estava atenta à história e foi impossível não notar suas reações e como seus olhos brilhavam enquanto a mesma era contada. A sensação que ela transmitia era de que ouvir aquela narrativa era como saborear um doce, aqueles de dar água na boca. Ela ouvia a história encantada com a narrativa e também com a forma como estava sendo narrada por João Jiló, uma voluntária do projeto caracterizada.
Descrever especificamente a reação daquela criança é difícil. Não há como descrever com detalhes os sentimentos, porém sua alegria e encantamento eram notáveis. A semente havia sido plantada, e constatou-se que ela voltou em quase todas as rodas realizadas naquela escola até o momento.
O objetivo do projeto é incentivar a leitura prazerosa e consequentemente contribuir na aprendizagem, mas é objetivo também fazer com que a família tenha participação ativa nesse processo.
Sempre que acontece o convite às crianças para a próxima roda, procura-se fazer com que elas tragam familiares, para que estes participem mais da vida escolar e, através da experiência com as histórias, tornem-se mais presentes como mediadores/as de leitura.
Certa vez, na mesma escola anteriormente citada, uma mãe lia para seus dois filhos. Ela, sentada em uma cadeira e as duas crianças encostadas em seus joelhos. A posição não parecia muito confortável, mas a reação das crianças e até mesmo da própria mãe com a história lida era interessante. Ela fazia gestos de acordo com o enredo da história e seus filhos a ouviam atentamente. Naquele dia ela leu pelo menos umas quatro histórias para eles antes que se iniciasse a contação. Terminava uma leitura e em seguida eles já tinham outro livro em mãos para que ela continuasse a ler.
Sempre se utilizando do tom de voz e dos gestos para mediar a leitura ela prendeu a atenção dos filhos. Talvez ela não saiba, mas sua atitude contribuirá para que seus filhos se tornem bons leitores e provavelmente bons mediadores. Ela estimulou o gosto pela leitura e diante de um bom exemplo não há argumentos contrários.
Os pais e mães que lêem para seus filhos, mesmo que esses ainda não saibam ler, contribuem para o seu desenvolvimento em todos os aspectos. Pais e mães que mediam a leitura para suas crianças não só as educam para que sejam bons leitores, mas facilitam, e muito, o processo de aprendizagem contribuindo para o seu sucesso escolar.
A última experiência a ser relatada, aconteceu durante uma roda de histórias com as crianças da Pastoral do Menor (Pró-menor). O público é diferente e as idades são variadas. A pastoral atende crianças, adolescentes e jovens com diferentes níveis de escolaridade.
A abertura da roda de histórias naquele dia aconteceu na sala de leitura da pastoral, e como na escola atendida pelo projeto, levaram-se os livros do mesmo, pois até aquele momento a biblioteca do local não havia recebido os novos livros.
Foi incrível perceber o gosto daquelas crianças pela leitura, algumas delas fizeram verdadeiras rodas de leitura e liam umas para as outras discutindo sobre o texto. Outras escolheram livros iguais e sentadas em círculo, liam cada uma um parágrafo da história.
Durante a roda um adolescente em especial mereceu observação. Ele pegou um livro retirou-se de perto dos outros que participavam da roda e sentando-se numa cadeira começou a ler. Ele ficou ali quase a tarde toda, calado. Lia silenciosamente, mas sua expressão facial enquanto estava lendo foi marcante. Não foi registrado o livro que ele escolheu para ler, mas seus olhos em determinados momentos expressavam alegria, suspense e tranqüilidade. Parecia que havia se transportado para outro universo e, provavelmente, era o que havia acontecido.
O público atendido pela Pastoral é de crianças cujos pais/mães trabalham e não têm como cuidar dos filhos e filhas no horário em que eles e elas não estão na escola. Proporcionar aquele momento foi riquíssimo não apenas para eles/as que puderam viver uma experiência nova, quanto para todos os participantes do projeto que tiveram a oportunidade de incentivar a leitura e comprovar que ela tem poder de transformar vidas, causar emoções e sensações diversas.
Desenvolver o hábito e o gosto pela leitura é um processo constante, que se inicia em casa entre os familiares, passa pela escola e segue pela vida afora. Incentivar a leitura de livros, revistas e tantos outros textos é de extrema importância para a sociedade que deseja formar sujeitos capazes de lidar com as mais diversas situações, além de proporcionar experiências maravilhosas, que só quem lê tem a possibilidade de vivenciar.

Considerações Finais
O gosto pela leitura é uma meta a ser alcançada. Quanto mais cedo as histórias entrarem na vida das pessoas, seja por meio da mediação ou da contação, maiores serão as chances de elas gostarem de ler. Por isso é preciso criar condições favoráveis à leitura através de espaços e situações que possibilitem essa ação.
Ler é um direito de todos, independente de classe, raça ou credo. Proporcionar o direito à leitura é possibilitar experiências significativas, mas acima de tudo é permitir que se quebrem as barreiras das desigualdades sociais, culturais e intelectuais. Sendo assim, se faz necessário pensar em políticas de leitura que incentivem a realização dessa atividade desde a infância para que a criança se torne sujeito ativo, pensante e independente dentro da sociedade.
Portanto, pensar e criar programas e políticas públicas de apoio a projetos de leitura como rodas de histórias, baús de leitura, cantinhos de literatura, bibliotecas móveis nos bairros, entre outros, é de fundamental importância e necessidade primordial de toda e qualquer sociedade que deseja o sucesso intelectual de seus indivíduos.
Facilitar o acesso às bibliotecas públicas com livros de qualidade e criação de projetos de incentivo ao hábito de ler por prazer não podem ser atividades isoladas de algumas instituições, mas uma atitude que deve envolver todos os órgãos que compõem a sociedade.

REFERÊNCIAS
ABRAMOVICH, Fanny. LITERATURA INFANTIL: Gostosuras e Bobices. São Paulo: Scipione, 1997.
BAMBERGER, Richard. Como Incentivar o Hábito de Leitura. 3 ed. São Paulo: Ática, 1987.
BENCINI, Roberta. Todas as Leituras. Revista Nova Escola, São Paulo, n. 194, ano XXI, p. 30-37, ago. 2006.
BRANT, José Mauro. Enquanto o sono não vem. Rio de Janeiro, Rocco, 2003. (Coleção: E quem quiser que conte outra).
CAGLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização & Linguística. 9 ed. São Paulo: Scipione, 1996.
DALDRY, Stephen. The Reader (O Leitor). Produção de Donna Gigliotti, Anthony Minghella, Redmond Morris e Sydney Pollack, direção de Stephen Daldry. Estados Unidos da America/ Alemanha, 2008. DVD/NTCS 124 min. color. son
GIRARDELLO, Gilka (org.). Baús e chaves da narração de histórias. 4 ed. SESC/Santa Catarina: Milbocas, 2008.
MACHADO, Ana Maria. Como e Por que Ler os Clássicos Universais desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
MANGUEL, Alberto. Uma História da Leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
MARICATO, Adriana. O prazer da leitura se ensina. Revista CRIANÇA. Ministério da Educação, n. 40, p. 18-26, set. 2005.
SMITH, Frank. Leitura Significativa. 3 ed. Porto Alegre: Artmed, 1999.
SOLÉ, Isabel. Estratégias de Leitura. 6 ed. Porto Alegre: Artmed, 1998.

[3] Com assessoria da Fundação Universidade Federal de Rondônia, a Pastoral do Menor concorreu e foi contemplada com um Ponto de Leitura por meio do Edital do Ministério da Cultura em 2008, recebendo 600 (seiscentos) títulos de literatura e equipamento para o funcionamento do espaço.

sábado, 25 de julho de 2009

A Importância Do Saber Contar Histórias Na Educação Infantil

Ler histórias para crianças é poder sorrir, rir, gargalhar com as situações vividas pelas personagens, é

suscitar o imaginário, é ter curiosidade respondida em relação a tantas perguntas, é encontrar idéias

para solucionar questões. É uma possibilidades de descobrir o mundo imenso dos conflitos, dos

impasses, das soluções que todos vivemos e atravessamos.

É ouvindo histórias que se pode sentir emoções importantes como a tristeza, o pavor, a insegurança,

a tranqüilidade e tantas outras mais.

“É através duma história que se podem descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir

e de ser, outra ética, outra ótica...É ficar sabendo História, Geografia, Filosofia, Política, Sociologia,

sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de aula...”.( ABRAMOVICH,

1995, p. 17).